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Frederico mudou-se para o Rio de Janeiro em 1966 para escrever uma coluna de arte no jornal Diário de Notícias. Logo em seguida passou a ministrar cursos de artes no MAM Rio e, em 1968, tornou-se coordenador dos cursos daquela instituição. Paralelamente à sua nova função, em 1969, com os artistas Guilherme Vaz, Luiz Alphonsus e Cildo Meireles, Morais co-fundou o grupo Unidade Experimental como uma espécie de laboratório de pesquisa para novas linguagens expressivas e situações voltadas à ativação dos sentidos e novas percepções. Morais descreve o papel da Unidade dentro do departamento de cursos como uma espécie de "laboratório pedagógico". No mesmo ano, o crítico, em um memorando para Maurício Roberto, diretor executivo do museu, descreveu seu papel de coordenador de cursos e apresentou seus planos para o próximo ano, incluindo o objetivo de, a longo prazo, inaugurar "a Universidade de Arte no MAM". Com o início desse processo, ele reestruturou os cursos do museu mudando a ênfase de formação técnica para um enfoque conceitual e experimental criando Ateliês Livre de Arte e estabelecendo duas novas iniciativas em particular: 1) Cultura Visual Contemporânea – curso de oito meses dedicado à cultura visual contemporânea integrando design, tecnologia, comunicação e semiótica; e 2) Curso Popular de Arte – curso de arte gratuito oferecido aos domingos. O memorando também observava que o departamento desenvolveria de forma pioneira: cursos para funcionários e monitores; criaria audiovisuais; trabalharia em colaboração com a Secretaria de Educação e Cultura e elaboraria programa de conferências e cursos para bibliotecas locais, centros comunitários, sindicatos e faculdades localizados nas periferias e subúrbios da cidade, incluindo "aulas práticas em praças públicas". Como Frederico sinalizou no "plano-piloto da futura cidade lúdica", conceito inicialmente lançado no IV colóquio da Associação Brasileira de Museus de Arte em 1969, em sua opinião, "o museu de arte pós-moderna" poderia ser um programador de atividades que poderia se estender por toda a cidade. (Comunicação interna para Maurício Roberto. Rio de Janeiro, 6 de março de 1969. MAM Cursos: Gestão e coordenação 1969, Acervo MAM RJ). In: Jessica Gogan, "Frederico Morais, os Domingos da Criação e o museu-liberdade", Domingos da Criação: Uma coleção poética do experimental em arte e educação org. Jessica Gogan em colaboração com Frederico Morais (Rio de Janeiro: Instituto MESA, 2017) 254-255.

Maurício Roberto (1921-1996) arquiteto e o mais jovem irmão dos três Roberto (MMM Roberto), um dos escritórios mais importantes de arquitetura moderna brasileira, foi diretor executivo do MAM (1966 - 1971) num momento vital de abertura da instituição para a vanguarda artística e cultural dos anos 60s e 70s. Foi um parceiro fundamental de Frederico Morais apoiando a experimentação e inovação na coordenação dos cursos. Em 1971 Frederico colaborou com Roberto numa proposta para a competição internacional de arquitetura para o centro de arte e cultura Centre Pompidou em Paris, conhecido como "Beaubourg" devido ao nome do bairro onde o centro está localizado. Como chave da proposta de Roberto estava a ideia do museu como laboratório e propositor de atividades tal qual detalhado aqui e também no ensaio/manifesto de Frederico "Plano piloto da futura cidade lúdica". Na época, o projeto para Beaubourg gerou uma competição internacional com mais de 600 submissões, sendo a equipe selecionada a de Richard e Su Rogers e Renzo Piano e o Centro 1977. Ao citar o Projeto Beaubourg/Equipe Maurício Roberto num breve artigo publicado um ano depois da seleção, Frederico anota: "É difícil – cada vez mais – pensar a arquitetura, como obra de arte em si, arte-coisa, para contemplação. É preciso pensar Beaubourg como atividade, a arquitetura como consequência, Beaubourg será mais do que um edifício, será sobretudo um conceito novo de museu ou centro propositor de atividades lúdico-criativas". Frederico Morais. Arte é organização: O museu é o artista), Minas Gerais (Suplemento Literário) 1 de julho de 1972.

O conceito "probjeto" foi um neologismo inventado pelo artista Rogério Duarte. Numa carta para Lygia Clark, Hélio Oiticica anota que o conceito foi inventado depois de horas de conversa entre os dois. Os probjetos "seriam objetos 'sem formulação' como obras acabadas, mas estruturas abertas ou criadas na hora da participação". Hélio Oiticica, Letter to Lygia Clark, October 15th, 1968. In Lygia Clark. Hélio Oiticica: Cartas 1964 – 1974, op.cit., p.12. O crítico Celso Favaretto contextualiza: "A poética do instante e do gesto ("a mais eficaz para exprimir as infinitas possibilidades da imaginação humana posta em ação) é interpretada por um novo conceito: 'jeto. Este é um modo de manifestação da proposição-vivência ou da estrutura-comportamento: é "objetato". Probjeto designa ações, que se desenvolvem em lugares abertos ou em "receptáculos" (camas, cabines, ninhos, tendas,) propostas como espaço para transformações, vivências." Celso Favaretto, A invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: Edusp, 1992, p.177.

Em sua coluna no Diário de Notícias, um dia antes desta, Frederico iniciou sua divulgação sobre a Unidade descrevendo um programa de atividades que incluirá concertos, estudos de percepção, exposições e estudos teóricos sobre "o problema da criação na arte e na ciência". Ele anota que o "responsável" seria Roberto Moreira, físico teórico e professor de teoria da relatividade, e continua enfatizando o foco de interesse da Unidade no corpo, na sensibilidade e na percepção e não nas experimentações tecnológicas. "Um ponto ficou bem definido nos debates que foram travados: a Unidade Experimental não fará nenhum tabu em torno de materiais novos, tecnologias e coisas mais. A material-prima com a qual seus participantes trabalharão será o cérebro, se possível apenas o corpo será usado. Importará não os materiais ou instrumentos empregados, mas o pensamento da proposta. Tudo poderá ser integrado nas experiências, mas nada será excluído a priori. Objetivo de todas as atividades: abrir e aguçar a percepção, propor novas formas de percepção." Frederico Morais. Café, Críticos e Unidade Experimental. Diário de Notícias, 14 de outubro de 1969.

Um laboratório de vanguarda

Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 15 de outubro, 1969. Artes Plásticas.

Considerada extensão da Coordenação de Cursos e tendo como objetivos, entre outros, realizar experiências em todos os níveis cultu­rais, no sentido da descoberta e uso de uma linguagem total e/ou de novas linguagens, foi criada com sede no Museu de Arte Moderna do Rio, a Unidade Experimental. A UE será um laboratório de vanguarda centralizador de experiências concernentes à decodificação e codificação de linguagens, esperando, portanto, atrair todos aqueles que, em qualquer nível, possam contribuir com suas experiências e trabalhos anteriores para a programação estabe­lecida e criação de novos programas.

Cursos e programação

A Unidade Experimental vai colaborar com todos os setores do MAM, especialmente na programação de atividades externas, cursos, ex­posições, conferências, debates, manifestações ambientais, plurissensoriais, interdisciplinar. No que concerne à Coordenação de Cursos a UEE será um laboratório pedagógico, visando a novas propostas de ensino. Todos os professores e alunos do MAM foram convidados a participar da Unidade Experimental, que considerará, também, qualquer proposta a ela encaminhada por interessados de fora do MAM.

Interdisciplinar

A proposta de criação da Unidade Experi­mental partiu de um grupo de artistas plásti­cos, músicos, críticos de arte e professores (do MAM) já com uma ficha de trabalhos reali­zados no campo da criação plástica e musical e no da teoria da arte. Este grupo encami­nhou ao diretor executivo do MAM, Sr. Mau­rício Roberto, oficio solicitando abrigo para a UE, no que foi imediatamente atendido. Em seu ofício, afirmavam, nos considerandos, en­tre outras coisas o seguinte:

  1. A atividade artística, hoje, é cada vez mais coletiva e interdisciplinar: a obra de ar­te rompendo as categorias e disciplinas, tal co­mo a ciência, é mais e mais plurissensorial, am­biental, participacional. No mesmo sentido, o Museu evoluiu da ideia de acervo e/ou exposi­ção (que não se exclui, porém não se limi­tando a isso) para outra, mais ampla e rica, que é ser um local onde se dão situações ar­tísticas, cuja coerência, por seu caráter multi­plicador e por seus efeitos imprevistos, muitas vezes retardatários, não podem ser reduzidas a simples estatística ou números.

Em seu ofício, afirmam que as atividades e realizações da UE terão em mira a codificação de novas linguagens que incluiriam formas de pensamento e de comunicação e informação através de todos os sentidos (tato, cheiros, au­dição, etc.), numa exploração mais ampla da capacidade lúdica do homem, ou seja, de uma pesquisa interdisciplinar, em todos os campos, sem qualquer limitação de ismos, cânones, sa­lões ou escolas.

Programação de 69

Não foi ainda definida a programação de 69, mas entre as atividades previstas estão as seguintes:

  1. Pesquisas com sons urbanos (tráfego, ba­res, publicidade, auditórios, aeroportos, etc.).
  2. Manifestações olfato-gustativas.
  3. Expedições com recolhimento de mate­riais e elaboração de relatórios e documenta­ção de experiências.
  4. Exposições de projetos ou probjetos — ideias, depoimentos e/ou obras inconclusas.
  5. Participação em salões com trabalhos de equipe.
  6. Realização de debates públicos.
  7. “Alguns exercícios para uma arte adian­tada”, a cargo de Roberto Magalhães, que reunirá um grupo de desenhistas com a intenção de pesquisar novas formas de percepção dos objetos usuais ou de situações ou fenômenos, inclusive naturais como vento, fogo, ar, água, etc.
  8. Pesquisa teórica (fundamentada em en­trevistas) sobre o problema da criação na ar­te e na ciência.